Fitti-Porsche

Nos idos de 1967, o falecido piloto Marivaldo Fernandes resolveu fazer um carro de corrida/protótipo, partindo de algo que já tivesse alma, nascido para o esporte.
Em troca de idéias com o Anísio Campos, optaram por comprar um Chassis de um Porsche 550 Spyder RS 1957, que pertencera ao Christian Heins.

O projeto exigia um chassis mais longo e, assim, o carro foi levado para a oficina do Gino Bortolleto, no bairro do Bexiga, que alongou em mais ou menos vinte centímetros a distância entre eixos.

No entanto, passada essa fase de execução, o projeto ficou abandonado e o carro foi parar no Chico Landi. Sabendo disso, os irmãos Wilson e Emerson Fittipaldi resolveram assumi-lo, comprando a briga....

Surge um novo protótipo

Levaram o carro para a sua oficina e chamaram o "Pixuto", que trabalhava muito bem em alumínio. O Emerson desenhou o carro na parede e o Pixuto aceitou o desafio. Aproveitaram as partes dianteira e traseira do chassis e fizeram todo o resto na unha...
Mais tarde, a tampa traseira do motor foi laminada em fibra de vidro. Inspiraram-se no Porsche 906, montaram a mecânica dos Karman-Ghia Porsche da Dacon, ou seja, o motor e câmbio do "Carrera 2" de duplo comando, 2.000cc e 170hp. Na primeira versão, o Fitti-Porsche não tinha capota. Depois, o Pixuto a construiu, bem assim as portas que abriam para cima. Os resultados estético e funcional foram excelentes.
Já nas 1.000 Milhas de 67, a dupla (Wilson/Emerson) liderou a corrida até sofrer uma pane no respiro do tanque de gasolina, da qual resultou um início de incêndio, que lhes custou o abandono da prova. Depois, ganharam duas corridas no Rio de Janeiro e abandonaram uma terceira, encerrando aí a primeira parte da história do carro, que foi vendido para a Escola de Pilotagem Bardhal.
Eu e o Maurício Paes de Barros o encontramos nessas condições, com motor WV, pintado de xadrez, amarelo e preto, servindo de cobaia para os iniciantes...

Uma nova fase

Não precisou muito tempo para convencermos o dono, Pedro Delamare, a nos vender o carro e o levamos, felizes, para as oficinas da Bumacar, onde o reformamos inteiramente e o pintamos de branco e laranja. Mais tarde, quando correm s pela Souza Ramos, ficou branco, azul e laranja. Colocamos a melhor mecânica ao alcance do nosso bolso, um WV- 1.800 preparado.

O carro voltou garbosamente para as pistas. O Maurício fez um segundo num "Festival de Velocidade", em Interlagos; eu coloquei o carro em terceiro, no "grid", nas 12 horas de Brasília, debaixo de chuva, disputando com o Lian Duarte e o Jaime Silva montados no "Bino" e no "Fúria", dois carros de ponta da época e que eram considerados imbatíveis. Naquela prova, o freio acabou e abandonamos. Nas 12 horas de Interlagos; de 1970, larguei entre os cinco primeiros e o carro estava bem colocado, não fosse uma "pane seca", quando perdemos várias posições. Como não haviam pneus de chuva suficientes, o chefe da equipe resolveu colocar radiais na frente, deixando os de corrida/chuva na traseira. Foi um caos. O Carro ficou inguiável e saía de frente "uma barbaridade", até que, na curva do Sargento, ao tentar acompanhar o Bird Clemente, bati forte no guard-rail e acabei com as nossas esperanças.

Perdendo o contato

Sem recursos (na época era tudo amadorístico), acabamos tirando a mecânica e a montando num Puma, vendendo o que sobrou do Fitti-Porsche para um piloto de Ribeirão Preto. Nunca mais o vimos, nem soubemos dele. Dia desses, o Wilsinho me contou que tentou recuperar o carro, investigou o quanto pôde e acabou em Brasília, onde o camarada que havia visto o carro pela derradeira vez lhe informou que perdera a sua pista. Talvez tivesse ido parar num depósito de sucata, como foi o Carcará, recordista de velocidade... É triste, para nós, que no Brasil temos tão curta memória, constatar que todas estas peças de inequívoca importância para o automobilismo nacional acabaram se perdendo no tempo e no espaço...

Sérgio Magalhães

 

Retorna