JOSÉ CARLOS PACE
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Ele não acreditava, em sorte, mas em técnica, e levou até o fim o lema que orientou sua curta carreira: "pé na tábua" |
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Certa tarde de domingo, na jovem-guardíssima rua Augusta dos anos 60, um adolescente paulistano alto - 1,80 metro - e meio gorducho -mais de 100 quilos - começou a mostrar a determinação como um dos registros mais fortes do seu caráter. Paquerou Elda Regina D'Andrea, uma gata recatada, na fila do cine Majestic. Depois da sessão seguiu-a até o Ibirapuera, ainda uma região bucólica da cidade, comandando o seu envenenado Simca Chambord branco, suspensão rebaixada e escapamento aberto. Mandou recados, atirou bilhetinhos no jardim, telefonou - e dez anos depois casou-se com ela, quando a firmeza de propósito já se manifestava em outra de suas paixões, o automobilismo. A cerimônia de casamento de José Carlos Pace com Elda Regina, no consulado brasileiro em Londres, coincidiu com o começo de sua arrancada para a Fórmula 1, um ciclo de vida emocionante e conturbado, que revelaria um traçado de destino contra o qual a determinação não funcionou: a inclinação para o trágico. Sua vida, pontuada de algumas alegrias e obstáculos constantes, voou pelos ares a bordo de um avião monomotor que se espatifou em 1977, quando ele ainda não havia completado 33 anos. "O Zé era tímido mas bem humorado, calado mas muito calmo", lembra Elda, saudosa dos tempos do namorico de portão, quando Pace ainda escondia de todos a obsessão pela velocidade e pelo risco, participando das provas com o pseudônimo de "Moco" (calado). A noiva e a própria família do piloto -dona Amélia e seu Ângelo - só souberam que ele corria quando ouviram pelo rádio o verdadeiro nome do campeão Moco. Já então, quase nada havia a fazer: donos de uma próspera tecelagem no bairro do Ipiranga, os Paces resolveram apoiá-lo em seu sonho, e no início dos anos 70 - pesando já pouco mais de 70 quilos por força de um regime jamais abandonado -Moco mudou-se para Attleborough, vilarejo da Inglaterra, sede da famosa escola de pilotagem de Jim Russell. Viveram meses tumultuados - Elda, recém-casada, dividia um minúsculo sobrado com o marido e o secretário Francisco Rosa, o Chiquinho, antigo administrador do autódromo que leva o nome de seu chefe, José Carlos Pace. Morava também lá o corredor Fritz Jordan, outro aspirante a campeão. "Eu não sabia cozinhar, o dinheiro era curto porque as despesas ficavam todas por conta -do aluno, e o Zé, apesar de ter abandonado as massas e os refrigerantes, sempre gostou de comer bem", conta Elda. Acostumada à comidinha farta, quente e bem temperada da classe média brasileira, rapidamente cedeu ao encanto das carnes semi-prontas e dos legumes pré-cozidos do dia-a-dia inglês. Cinco meses depois voltou ao Brasil para o nascimento da primeira filha do casal, Patrícia. Para Pace, não havia cautela nem moderação quando se tratava de pistas de corrida - ele avançava aceleradamente rumo à Fórmula 1, ao mesmo tempo que Emerson e Wilsinho Fittipaldi inauguravam suas carreiras internacionais. O garoto veloz, que construía os próprios carrinhos de rolemã para sair ladeira abaixo no acidentado Pacaembú, onde morava quando criança, já havia cumprido algumas etapas fundamentais. Correra de kart e orgulhava-se do título de campeão brasileiro de Marcas dividido com Luiz Pereira Bueno, em 1967, pilotando um Renault-Gordini. Passou como um bólido pelos estágios mais técnicos e exigentes. Na Europa, em 33 largadas, Moco obteve seis vitórias e sete segundos lugares. Foi o campeão inglês de Fórmula 3 em 1970, batendo seis recordes. Já com o patrocínio do Banco Português do Brasil, cumpriu parte do calendário da Fórmula 2 em 1971 mas entrava ao mesmo tempo numa fase quase interminável de problemas com carros, um drama em sua carreira. Azar? "Não acredito em azar nem em sorte", costumava dizer. "Só creio em técnica." Esse atributo Pace tinha de sobra, mas mesmo assim não se enquadrava na categoria dos pilotos considerados perfeitos, como Emerson Fittipaldi, Jackie Stewart, Jim Clark ou Ayrton Senna, de acordo com o sistema de valores estabelecidos pelos experts em automobilismo. Esta avaliação compreende atributos como dirigibilidade, vontade de vencer, autodomínio e inteligência. Apenas as duas primeiras qualidades, diziam os homens da velocidade, eram características de Moco de modo absoluto. Outra coisa: "Ele conhece pouco de mecânica", avaliava na época Wilson Fittipaldi, pai de Emerson e Wilsinho e experimentado comentarista automobilístico. Um único êxito na Fórmula 2 - a vitória em Imola, na Itália, em 1969 -, favoreceu sua entrada na Fórmula 1, onde estreou na temporada seguinte, correndo para Frank Williams e voltando a exibir grandes virtudes e alguns defeitos básicos. O apego à velocidade, decisivo em momentos críticos da corrida, era muitas vezes anulado pelo desprezo e desatenção a detalhes como o perigo das curvas, das pistas molhadas, e nas quais o piloto ignorava as necessárias reduções de marcha . Era um pé-de-chumbo, como se diz na gíria automobilística. Apaixonado, impulsivo, venceu as dificuldades com o carro da equipe de John Surtees e chegou a alguns bons resultados, um quarto lugar na Alemanha e um terceiro na Áustria.
"Correu como um campeão", diziam os jornais da época, mas a previsão não se confirmou. Algo empacava a carreira de Pace, e ele, discretamente, atendia às sugestões dos amigos na tentativa de se livrar da ziquizira. Os ventos pareciam mudar de direção quando se transferiu para a prestigiosa Brabham, fazendo dobradinha com o argentino Carlos Reutmann e na terceira prova da temporada de 1975, no ainda chamado Interlagos, ganhou seu único Grande Prêmio. "Correu como um campeão", diziam os jornais da época, mas a previsão não se confirmou. Algo empacava a carreira de Pace, e ele, discretamente, atendia às sugestões dos amigos na tentativa de se livrar da ziquizira. A conselho da venerada Mãe Menininha do Cantuá, inverteu o sentido de direção da seta que enfeitava seu capacete azul-escuro - colocou-a voltada para cima. Aceitou também um presente da mãe, igualmente carregado de simbolismo, e passou a usar uma estrela de ouro de cinco pontas cercada por um círculo prateado, desenhada, num sonho pelo pai, já morto. E lia com atenção os livretos da seita Seicho-no-iê, de origem japonesa, que prega o otimismo e a alegria como armas contra a dificuldade. A devoção ao perigo e à velocidade pareciam mais fortes, e Moco - já então um exímio esquiador aquático - começou a tomar aulas de pilotagem de avião. Continuava com o pé na tábua. Num passeio com o amigo Marivaldo Fernandes e o piloto Carlos Roberto de Oliveira, Pace morreu no meio de uma tempestade, poucos minutos depois de levantar vôo do Campo de Marte, em São Paulo, rumo a Araraquara, no interior do Estado. Viajava como mero passageiro, mas selou vida e carreira voando baixo - do mesmo jeito que experimentou suas maiores e mais intensas emoções. |
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